O Placard de Cortiça

Recuemos um pouquinho no tempo…

Sim, pode ser aos anos da faculdade, aos do secundário, do ciclo, aos que tu quiseres. Mas diz-me a verdade: tinhas um placard de cortiça no teu quarto, onde penduravas pequenos rascunhos em papel, com aquilo que te apetecia, na altura, imortalizar.  Era um bocadinho disso que se tratava.  Aquela frase, aquela foto, aquele pacote de açúcar aberto por alguém que é ou já foi especial para ti não podem ser misturados com todos os outros que vão para a gaveta, para a arca ou para o lixo. 

Foi por aqui que comecei a puxar as pontas de um novelo que me trouxe àquilo que gosto tanto de fazer. E é só a isso que me proponho: escrever e gostar de o fazer. 

Este será o meu placard de cortiça. E podes vir cá de vez em quando espreitá-lo. Uma vez por mês terei sempre coisas para te contar.

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– Avó, porque é que estas pessoas estão aqui todas nestas caixas?

– São pessoas que já não estão cá e já não podemos ver.

– São senhores maus?

– Não, minha querida. Nem todas as pessoas que morrem são senhores maus.

– Então porque é que morrem?

– Não sei… Não sei, minha flor.

– Avó, porque é que os adultos nunca sabem nada?

– Porque já deixaram de ser crianças.

Pôr do Sol

Havia no pôr-do-sol uma displicência que a inquietava. Era nessas alturas que tinha mais saudades. Não sabia se dele, se dela quando estava com ele. Tirou a fotografia do bolso, onde a guardava sempre. “Sacana, se não gostasse tanto de ti, rasgava-te em mil pedaços!” Voltou a guardá-la sem certezas. Apenas sabia que o sol amanhã voltaria a pôr-se. Trocista… como sempre.

Encaixe Quase Perfeito

Ele queria partilhar com ela os encaixes perfeitos da Natureza. Não há nada mais romântico do que viver uma paisagem a dois. Mas afinal, aquela peça não era dali.

Hoje Não

TIC…

O compasso das horas começa a fazer doer. É por esta altura que a vida dela se transforma, numa torrente de revolta, medo, culpa e protecção.

TAC…

Lá está o relógio. E lá está ela. Enquanto ouvir o seu compasso tudo está penosamente igual. Com o braço inseguro, como a corda bamba que tem sido a sua vida, pega na bebé para a adormecer e proteger. O amor protege, não protege? Ela sempre achou que sim. Mas ainda assim sente-lhe a culpa. Como poderia achar que ele mudaria com o nascimento da Sofia? Ele não mudaria nem por ela nem pela bebé. Nem tão pouco por ele. A culpa era imensa e ocupava demasiado.

TIC…

Sim, ela sente-lhe a culpa. Pode não lhe ser diariamente suficiente e se calhar não é mesmo. Não tem a certeza disso, mas sempre foi a resposta mais rápida e premente. Sente dentro de si um peso tão grande que lhe parece que suporta o mundo. O dele, o dela e agora o daquela pequena bebé que um dia não soube proteger.

TAC…

Mais uns minutos e ele deve estar mesmo a chegar. A hora é esta, é muito perto e ela ouve-lhe os passos. Afinal é só o coração a fazer barulho em movimentos arrítmicos. Também ele tem medo. Também ele fica ferido depois de uma noite de luta. Na verdade é ele quem mais se sufoca. Porque também ele lhe sente a culpa. Deita a bebé no berço e aconchega-a com o ursinho de dormir para que não faça barulho. Caso contrário ele dará conta dela. E ele não pode dar conta de nada ou apanham as duas.

TIC…

O relógio está certo e continua ali. E continua tudo igual. Se tudo correr bem ela consegue que ele não toque na bebé. Nem sempre foi assim, houve dias em que não conseguiu. E ela sente-lhe a culpa. Mas são demais os pontapés, são demais as marcas deixadas por toda aquela pancadaria desenfreada em dois corpos tão frágeis, em duas almas tão puramente dedicadas e agora tão fortemente desiludidas. Ela só queria uma família leal, com a paz e a imensidão das famílias normais, onde não falta nada desde que sobre amor. Foi esse o seu erro, sabe-o agora. Porque lhe sente a culpa. Que a conduziu a um sofrimento tão calado, tão negligentemente disfarçado, tão tímido, que o tornou insuportável.

TAC…

Mais um compasso do relógio. Ele chegou. Passos cambaleantes como de costume… ela ajeita o cabelo e molha os lábios para se encorajar.

TIC…

Hoje não. Hoje ela sente-se mulher capaz. Decidiu apunhalar todos estes anos de angústia silenciosa. Hoje ela manda os ponteiros do relógio à merda. Ele pode até suplicar-lhe por uma desculpa, que cairá no caixote das coisas toscas . Mas se lhe pedir que se esqueça ela é capaz de o matar. Afinal a culpa nunca foi dela. O medo sim!

TIC…

relogio

A Olhar Por Ti

Acordei depressa porque a casa cheirava ao teu café e eu tinha vontade de crescer. Não há muitos cheiros tão confortantes como esse. O da lareira conforta mas fica na roupa e não sai facilmente. E nós temos sempre medo daquilo de que não nos conseguimos livrar sem termos a certeza de que é daquilo que nos queremos marcar. No meu pequeno pijama, que terminava nas pantufas felpudas, percorria o corredor até à cozinha e era lá que, sem surpresa, dava contigo a tratares de mim.

Vesti-me depressa, porque havia uma aula de inglês e eu tinha vontade de aprender. Vestias um casaco de um pelo que eu gostava de acariciar e prendias-me o braço num gesto que eu gostava de imitar. Se não fosse assim eu podia escapar-me para o meio dos carros e tu nunca saberias como lidar com isso. Sem surpresa, dava contigo a olhares por mim.

Deitei-me depressa, porque havia uma vida pela frente e eu tinha vontade de sonhar. Na minha cama pesada pelos inúmeros cobertores davas-me um beijo de boa noite e querias apagar a luz que eu queria deixar acesa. Para ter a certeza que, sem surpresa, dava contigo a cuidares de mim.

No jardim da tua casa, vestida de preto, empurravas o meu baloiço para me veres feliz. E eu pensava que quando fosse maior queria ser forte, decidida e confiante como tu.

Acordaste devagar. Eu tinha aquecido o teu café e tu não tinhas pressa para o beber. O teu corpo tiritava dentro do pijama e tinhas-te esquecido de calçar as pantufas. Vestimos um robe e cheguei-te perto da lareira para não teres frio. Sem surpresa, dei comigo a tratar de ti.

Vestiste-te devagar. Havia um almoço importante, mas tu tinhas-te esquecido de quem era. No teu quarto ajudei-te a vestir a saia por cima dos collants e não ao contrário como tu pensavas que era. Sentada na cama pedias-me para escolher os brincos e eu pedia-te para os escolheres tu que sabias enquadrar estas coisas da moda muito melhor do que eu. Sem surpresa, dei comigo a olhar por ti.

Deitaste-te devagar. Não tinhas pressa em dormir, porque nunca há pressa quando não temos a certeza no acordar. Não querias ficar a dormir sozinha, porque tinhas medo de não conhecer as paredes do teu quarto. Pedias-me que te compusesse a almofada, para enganares o tempo e para teres a certeza que, sem surpresa, davas por mim a cuidar de ti.

O baloiço da tua casa já não tem ninguém, mas continua a baloiçar. Talvez seja o vento.

O teu corpo já não tem ninguém, mas eu continuo a lembrar-te. Talvez seja o amor.

 

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O Prazer da Felicidade

– Consegues distingui-los?

– Prazer e felicidade? Podemos partir do princípio que ambos são mensuráveis, ainda que não palpáveis. Mas em qualquer situação sou capaz de distingui-los em muito, pouco ou nada. É um bom princípio, se imaginar que a maioria dos sentimentos são perceptíveis, mas poucos beliscam o campo do racional. Não estarei muito enganada se me tentar convencer que o prazer é uma sensação e a felicidade um estado de espírito. O primeiro pode até parecer um potenciador de estados de espírito. O prazer mascara-se. Pode ser perigoso, negligente, delinquente até, sem nunca deixar de vestir a capa de sensação boa. E num instante nos remete para o estado de espírito que julgamos ser a felicidade. Por um minuto, por uma hora, pela vida toda, é bem possível.

A felicidade é onde todos queremos estar, repara bem. O bom disto é que ela materializa-se de diferentes formas, na saltitante capacidade que temos de nos convencer relativamente àquilo que nos chega para a vivermos. A rotina pode ser felicidade, a falta dela também. O fogo pode sê-lo, da mesma forma que a água. A felicidade pode até nem se sentir, mas apenas ver-se e ao confundirem-se estes dois sentidos, podemos estar a confundir-nos apenas. Não sei se a felicidade é atingível, nem quero saber tão pouco, isso basta-me. Podemos ter apenas pequenos momentos de prazer que nos potenciam um estado de felicidade.

– Pura?

– Não será, certamente. Um pensador dirá que a felicidade é como água na palma da mão: não consegues equilibrá-la e, se a apertas, foge-te. Não vejo mal numa constante insatisfação em busca do pleno, mas vejo nisso uma barreira para que nunca se lá chegue.

– O que é que preferes?

– Deixar-me enganar, de vez em quando, por pequenos momentos prazerosos, confundindo uma simples sensação com um objectivo de vida. Ou então podemos jogar às cartas. O prazer é o Joker. A felicidade, o ás de trunfo.

 

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