O Placard de Cortiça

Recuemos um pouquinho no tempo…

Sim, pode ser aos anos da faculdade, aos do secundário, do ciclo, aos que tu quiseres. Mas diz-me a verdade: tinhas um placard de cortiça no teu quarto, onde penduravas pequenos rascunhos em papel, com aquilo que te apetecia, na altura, imortalizar.  Era um bocadinho disso que se tratava.  Aquela frase, aquela foto, aquele pacote de açúcar aberto por alguém que é ou já foi especial para ti não podem ser misturados com todos os outros que vão para a gaveta, para a arca ou para o lixo. 

Foi por aqui que comecei a puxar as pontas de um novelo que me trouxe àquilo que gosto tanto de fazer. E é só a isso que me proponho: escrever e gostar de o fazer. 

Este será o meu placard de cortiça. E podes vir cá de vez em quando espreitá-lo. Uma vez por mês terei sempre coisas para te contar.

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Sai Para a Chuva

Aproveita os dias de chuva. A de fora e a de dentro. Sai para a rua, deixa que as lágrimas se desvaneçam nas suas gotas. Não abras o chapéu, não te protejas, aceita apenas. Aos poucos vai parar de chover. Aos poucos o dia de amanhã vai ser melhor. Aos poucos os teus passos na rua deixarão uma marca mais firme. Aos poucos o sol vai nascendo outra vez. Faz por estar cá para ver.

Vivendo

– Que mãos bonitas! – disse-lhe ele, no meio dos corredores.

– Ponho-lhes um creme todos os dias… Na verdade não têm nada de especial.

– Estou a falar da elegância, da leveza e do vigor. Isso não se embeleza.

– Que olhos lindos! – disse-lhe ele, no meio do autocarro. 

– Estão pintados! Na verdade não têm muito que se lhes diga.

– Estou a falar do brilho, da intensidade e da profundidade. Isso não se pinta.

– Que sorriso lindo! – disse-lhe ele, no meio do parque. 

– Fiz um branqueamento! Na verdade não tem nada de mais.

– Estou a falar da franqueza, da luz e da sinceridade. Isso não se esconde. 

– Que coração tão doce. E a este, que lhe fizeste?

– A esse nada. 

– Pois! A esse, sim! Pinta-o, embeleza-o, enche-o! Canta-lhe, acaricia-o, revolta-o e apazigua-o. Um coração doce, por mais voltas que dê o Mundo, nunca será outra coisa senão um doce. 

– Então para que lhe vou fazer isso tudo?

– Para viveres

 

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O Amor Não Se Separa

E quando, em vez de brilhante e lisa, a minha pele for baça e rugosa? Vais olhar-me da mesma maneira? 

E quando, em vez de intenso e esplendoroso, o meu olhar for perdido e fugaz? Vais-me guiar com a mesma perseverança? 

E quando, em vez de sedoso e farto, o meu cabelo for débil e escasso? Vais acariciá-lo com a mesma ternura? 

E quando, em vez de vigorosos e atraentes, os meus lábios forem finos e desinteressantes? Vais beijá-los com o mesmo fulgor? 

E quando, em vez de ávido e elegante, o meu passo for incerto e inseguro? Vais-me segurar com a mesma força? 

E quando, em vez de sol e brilho e dança e vida, eu for apenas chuva, escuridão e suspiro?

E quando eu deixar, pura e simplesmente, de ser? 

– Nesse dia, vou amar-te para sempre, como fiz até aqui. Até que a morte nos separe. 

Mas nem a morte os separou.  

pai e mae

Ama-me e Orgulha-te

É tão tarde e eu não consigo dormir. Daqui a um pequeno par de horas tenho um jogo importante e sustenho-me em longos receios teus. No que, desenfreadamente, esperas de mim. No que, refinadamente, vês em mim. 

Calço as sapatilhas com as mãos a transpirar e sei que nesse suor escorre a lembrança de te ver a blasfemar na bancada e o medo de te voltar a ver concentrado em todos os dissabores normais de um jogo. 

Durante a apresentação percorro, num tique trémulo, as cadeiras ainda intercaladamente preenchidas. A ocupar o primeiro lugar das minhas contundentes preocupações vem o teu bracejar colérico e as ultrajantes pragas rogadas para o ar. Fica-me para segundo plano toda a estratégia que o treinador, com tanto empenho, nos ditou há minutos.  

Por falar nele… 

Que nos assumiu este ano como a sua segunda família. Que prepara os treinos a meio sabe-se lá de quê, com que tempo, com que ansiedades e preocupações pessoais a percorrerem-lhe e a toldarem-lhe a alma. Sem nos deixar para trás. Que deixa a família em casa depois de um dia de trabalho e que lhes ocupa os fins-de-semana de fio a pavio. O que é isto, senão altruísmo?

Por enquanto tudo está calmo. Apenas alguns de nós sabemos a falsidade desta quietude. Não tarda nada começam os tambores, os cânticos e os saltos. Que nos enaltecem, alegram e orgulham! Que sensação danada de vigor e pujança!

Mas para quê os desaforos… Para quê as insinuações, as provocações, os gestos incautos. Que nos atormentam, nos ferem e humilham. Que sensação monstruosa de vergonha e desrespeito.

O árbitro ainda agora pôs a mão no bolso, num gesto nervoso de quem aparenta segurança. 

Por falar nele…

Que é uma pessoa como qualquer um de nós e não quer errar. Que se vê rodeado de miúdos em tenra idade e na plenitude do seu fulgor. Tarefa bastante ameaçadora e ainda mais dificultada, quando, de frente, se espraiam nas bancadas adultos que lhe gritam, ameaçam e corroem. A ele, que saiu de casa para estar ali, quando podia ter saído só para aproveitar um belo dia como o de hoje. 

Ensina-me a garra, a disciplina, o dever. Os direitos eu conheço, até mais do que os que tenho, quando, também a mim, me sobe pelo sangue a avidez da competição. Deixa-me ser eu a saber quando e com quem jogo. Deixa-me saber se tenho tempo e o que devo almoçar. Carrega-me dessa responsabilidade e não me deixes em lume brando para que nada me falhe e para que seja o melhor. Deixa-me cair nas armadilhas do sucesso, nas amarguras das desilusões e anda comigo no frenesim das vitórias. Não me tires as barreiras do caminho, ensina-me só a andar nele, ultrapassando-as. Não te revoltes contra o treinador, não te exaltes contra o árbitro. Não entres em competições injuriosas com o pai adversário. Não sabes o orgulho e a felicidade que me dá ver-te na minha bancada, no clube que é a minha casa, de braços abertos e cachecol ao peito, de mãos unidas num aplauso tão genuinamente sentido e tão forte na pureza. Fá-lo também com os meus colegas. Fá-lo também comigo, quando falho. E com eles. Não sabes a força que me dá ir jogar fora e ter-te sempre lá, de corpo e alma, presente em todos os meus locais desconfortáveis. A ti e a todos os outros pais, por nos carregarem nos vossos carros sem pedir nada em troca e por tornarem possível a competição. 

Ama-me e orgulha-te. Mas deixa-me ser fracasso também. Eu não aprendo muito com as vitórias, no máximo levanto uma taça. Só as derrotas me mostram o caminho para melhorar. 

O teu apoio é tão confortante, mas por favor não me vejas só a mim. Eu não sou o teu troféu. Sou só o teu filho. Que gosta de jogar à bola.

mãos

Ressuscitar

– Midríase…

– Está morto, Doutor?

– Ele não. O amor que nele havia, sim.

– Podemos recuperá-lo?

– A ele sim. Ao amor jamais. Ressuscitar um amor é tão inútil como colar a flor de novo ao caule. A menos que não seja verdadeira…

– E agora, o que lhe faço?

– Nada! Deixe-o aprender.

– Como assim, Doutor?

– Só estamos aqui eu, você e este gajo meio vivo. Ouça-me com atenção: se morreu, não era amor.

A casa da Avó Laurinda

A casa da Avó Laurinda vira para ali. E quando nos viramos para ali podemos sentir. Ali o filme é mais nítido. Ali não se ouve nada e ouve-se tudo. Tudo o que se quiser. Ali não se fazem esforços para pensar, não se agitam dias com horas que nos faltam. Tudo é mais claro. Pode-se encher o peito de ar ou de merdas da vida e expirá-las borda fora. O que te aperta, por lá fica, o que vale a pena guardar, renova-se. A Avó Laurinda já não está ali para me abrir a porta com conselhos. Mas eu aprendi a ouvi-los mesmo assim.

Ali, onde é possível que a vida pare. E se consiga viver nela.